Vinicius Junior estará em campo nesta quarta-feira para liderar o Real Madrid em novo embate contra o Benfica por uma vaga nas oitavas de final da Champions League. E seguir firme na luta contra o racismo, tema que marcou o jogo de ida. O futebol europeu precisa fazer mais sobre esse problema, reconhece o presidente da La Liga, Javier Tebas.
“Porque com o caso do Vinicius nos demos conta de que não fazíamos o suficiente. Havia uma situação que tínhamos que mudar. Não podemos seguir igual.”
— Javier Tebas, sobre a influência de Vinicius Junior na luta contra o racismo na Espanha.
O atacante brasileiro encara situações do tipo na Europa, principalmente na Espanha, pelo menos desde outubro de 2021, quando foi registrado o primeiro episódio, num clássico do Barcelona contra o Real Madrid no Camp Nou. As autoridades receberam denúncia, mas arquivaram o caso.
São pelo menos 25 casos registrados de racismo contra Vinicius Junior na Europa, em estádios, no entorno ou nas redes sociais, segundo levantamento do ge. O mais recente na Espanha aconteceu durante o confronto contra o Albacete na atual Copa do Rei.
A liga espanhola conta com um grupo especial que acompanha o atacante brasileiro em jogos fora de casa para detectar gritos racistas, há dois anos.
A La Liga não tem poder de sancionar torcedores, jogadores e clubes por episódios de racismo, de acordo com a legislação da Espanha. Tebas já defendeu a perda de pontos no Campeonato Espanhol para clubes responsabilizados. Hoje ele adotaria a medida de fechar arquibancadas e estádios, caso a liga pudesse punir.
— Que possamos fechar arquibancadas. Se tem o insulto racista, e não são identificados pela torcida… O autor é quem insulta, mas o outro o encobre. É o que há, por permitir. Fechar as arquibancadas, em alguns casos o estádio, que seja. Mas fechar as arquibancadas seria muito importante. Tem que extirpar do estádio a figura que insulta. E também, do lado de fora do estádio, quando se identifica grupos de torcedores perfeitamente, de qual torcida organizada são, ter a capacidade de impedi-los de entrar no estádio pelo que fizeram do lado de fora.
Cabe à La Liga encaminhar informações, cartas e denúncias ao Comitê de Competições da federação espanhola de futebol (RFEF) e ao Ministério do Esporte, além do Ministério Público e a Justiça comum. Essas instituições têm a responsabilidade de eventualmente punir atos racistas.
As ações de Vinicius Junior transformaram a sociedade espanhola — pessoas passaram a ser presas e condenadas por delitos de ódio e racismo no futebol. A primeira sentença aconteceu em 2024, ligada ao episódio no estádio Mestalla. Até agora houve cinco condenações.
Javier Tebas já discutiu com Vinicius Junior nas redes sociais sobre o tema. O presidente da La Liga afirmou no passado que o atacante precisava “se informar” sobre o trabalho feito pela liga contra o racismo. O dirigente declarou também que “nem a Espanha nem La Liga são racistas”, e que não iria permitir que “a imagem da competição fosse manchada”.
Tebas pediu desculpas depois a Vini Jr e admitiu que não se tratavam de casos isolados no futebol da Espanha. Ele afirmou no ano passado que o país era o que tinha menos condutas racistas e intolerantes da Europa, e que La Liga conseguiu acabar com os “coros” nos estádios.
A liga espanhola criou em agosto de 2023 a plataforma “LALIGA VS Racism” para centralizar ações, conscientizar o público e facilitar denúncias. Também estabeleceu uma parceria com o Ministério de Inclusão, Segurança Social e Imigração da Espanha e compartilhou sua ferramenta de monitoramento de discurso de ódio em redes sociais.
A liga espanhola e a federação espanhola de futebol incorporaram em setembro de 2024 o protocolo de atuação de incidentes públicos de racismo, que havia sido aprovado em maio do mesmo ano pela Fifa.
Levantamento do Observatório Espanhol de Racismo e Xenofobia sobre a temporada passada (2024/25) revelou que houve mais de 33.400 casos no país de discursos de ódio nas redes sociais. Lamine Yamal, do Barcelona, foi o principal alvo (60%). Vinicius recebeu 29% das mensagens.
— Considero que tivemos avanços importantes sobre esse tema na Espanha, mas não definitivos. Os episódios racistas no futebol profissional desaceleraram, isso está comprovado. Mas não se pode baixar a guarda, e deve-se seguir educando, principalmente com sanções mais duras — comentou o jornalista Salvador Moya, pesquisador espanhol do tema de racismo e violência no esporte.
Por Rodrigo Lois — GE Rio de Janeiro





