
A vida de Francisco Pedrosa Galvão, ou simplesmente Chico Pedrosa, é uma saga que se confunde com a própria história do Nordeste. Nascido no Sítio Pirpiri, zona rural de Guarabira, na Paraíba – no dia 14 de março de 1936 – coincidentemente no dia da Poesia, este cordelista e poeta é um dos maiores declamadores do país e carrega em seu jeito simples e calado a força das palavras que desabrocham em poesia rica e metrificada, exata como uma resposta em prova de português.
Sua jornada literária começou aos 11 anos de idade, em 1948, na Fazenda Pau Amarelo, quando o pai – agricultor e famoso repentista – o cantador de coco Avelino Pedrosa Galvão, conhecido como Mestre Avelino, lhe presenteou com o primeiro folheto de cordel: “A intriga do cachorro com o gato”, do pernambucano Zé Pacheco. Ali, Chico Pedrosa descobriu seu mundo, mas a realidade da vida no campo logo o impôs um desafio.
Após sofrer uma injustiça na escola do sítio em que estudava e ser afastado pela professora, começou a escrever folhetos de cordel. Esse incidente foi relatado no poema “Revolta dum Estudante”. Aos dezoito anos de idade, sob a influência do ambiente que encontrava em casa. Junto com seu amigo, o também poeta Ismael Freire, cantava e vendia seus folhetos nas feiras da região.
A dura prova do Triângulo Mineiro
Aos 18 anos, em busca do sonho de dar uma vida melhor à sua mãe, Ana Moreira da Cruz, dona de casa e prima legítima do cantador Josué Alves da Cruz, o jovem Pedrosa aceitou um anúncio e viajou, em cima de um caminhão, para o Triângulo Mineiro. Foram nove meses de trabalho em condições análogas à escravidão: dormindo ao relento, com péssima alimentação e vigiado por um segurança armado em frente ao galpão.
O tormento não parou por aí. Ao ser dispensado após os nove meses, não só ficou sem receber, como ainda estava devendo ao fazendeiro – um poderoso coronel – o custo da alimentação. “Tive que trabalhar mais três meses em outra fazenda para pagar o que estava devendo e poder retornar a Guarabira”, relata.
O golpe mais cruel, no entanto, foi saber do falecimento de sua mãe durante o período. Suas cartas, escritas com carinho para dona Ana, eram entregues aos donos da propriedade com a promessa de serem enviadas pelos Correios, mas, na verdade, eram destruídas. “Eu fui para o Triângulo Mineiro com o sonho de ganhar dinheiro para dar uma vida melhor à minha mãe”, lamenta o poeta.
O nascer de um sucesso: O grito em versos
Esse sofrimento indescritível deu origem à sua primeira obra de grande repercussão. Em 1952, o jovem Chico Pedrosa escreveu “Os sofrimentos dos nordestinos no Triângulo Mineiro”. Publicado por Joaquim Batista de Sena, o folheto alcançou enorme sucesso e vendas expressivas na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e demais estados do Nordeste.
Foi o pontapé inicial de uma carreira prolífica que já rendeu mais de 300 cordéis, seis CDs, um DVD, nove livros e centenas de palestras e declamações em milhares de cidades brasileiras. O poeta brinca que só falta conhecer o Acre, Rondônia, Amapá e Amazonas, mas está em permanente roteiro de viagens.
Entre seus “filhos” literários, como ele se refere às obras, destaca-se o cordel “A Briga na Procissão”, que foi transformado em peça teatral e apresentado até fora do Brasil, com planos de ser adaptado para o cinema. Seu trabalho mais recente, “Lua Luar do Sertão”, é uma emocionante homenagem a Luiz Gonzaga.
Ancorado na Bahia
Desde 1967, Chico Pedrosa está radicado em Feira de Santana, na Bahia, onde vive com a esposa, dona Terezinha, e os dois filhos Francisco Carlos Galvão e Flávio do Nascimento Galvão. Pedro Henrique, um de seus netos, já aos cinco anos começou a demonstrar tendência para a arte do avô. A cidade o conquistou após uma primeira visita em 1959. “Em 1967 cheguei para ficar. São 58 anos!”, celebra.
Além de folheteiro foi camelô e durante 36 anos foi vendedor de autopeças. Andou o Nordeste inteiro com uma pasta e uma lista de preços. Enquanto abastecia o mercado com peças de automóveis, enchia de sonhos, utopias e ilusões os amantes da poesia. Foi inspirado em sua própria profissão, na luta pela sobrevivência, que ele fez o poema “O Vendedor de Berimbau”, que retrata o relacionamento, nem sempre amistoso, entre os vendedores e os clientes.
Quando se aposentou, na década de 1980, o poeta tomou o caminho de volta às origens. Dedicou-se exclusivamente à poesia. Quando não está em viagens, é comum encontrá-lo no Mercado de Arte Popular (MAP), no espaço dedicado ao cordel, em uma conversa tranquila com o folheteiro Jurivaldo Alves.
Nos últimos anos, tem participado de diversos shows, apresentando sua poesia ao público nacional, em especial nas grandes capitais: Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Brasília (DF) e Recife (PE). Emotivo, como todo bom poeta, ele chora ao recitar algumas de suas poesias. De fato, não esconde a emoção das suas obras.
Uma tristeza e um sonho a realizar
Apesar de se considerar um homem realizado, o poeta confessa carregar uma tristeza no fundo do coração: não ter podido concretizar o sonho de dar uma vida melhor à sua mãe, Ana Moreira da Cruz, na época em que esteve no Triângulo Mineiro.
Seu último grande desejo é homenageá-la postumamente em Serraria, na Paraíba, onde ela nasceu, no Sítio Araçá. “Aí, então, estarei de fato realizado!”, conclui o mestre do cordel, que transformou a dor e a história do nordestino em arte para o Brasil.
Assista Chico Pedrosa – A Briga na Procissão
Do ManchetePB
Na Coluna Feira em História
por Zadir Marques Porto


