“E por incrível que pareça, [o feriado de amanhã é] carimbado de Dia do Trabalho. Não, é o dia da vagabundagem. Porque não é trabalho. Trabalho é você sair de casa de manhã e voltar a noite, tendo cumprido uma missão profissional. Eu sou absolutamente contrário a esse tipo de feriado”, afirmou o empresário paraibano, Roberto Cavalcanti, durante programa ao vivo na TV Correio, ao qual é dono.
A declaração do ex-senador paraibano Roberto Cavalcanti ultrapassa o limite do debate econômico e entra no campo do desrespeito explícito ao trabalhador brasileiro.
Ao afirmar que o Dia do Trabalhador deveria ser chamado de “dia da vagabundagem”, o empresário não apenas ignora o peso histórico da data, como também desqualifica milhões de trabalhadores que sustentam diariamente empresas – inclusive as suas. Trata-se de uma fala que carrega desprezo e revela uma visão profundamente distorcida sobre o que é trabalho e dignidade.

Cavalcanti, que é dono do Sistema Correio de Comunicação – um dos maiores conglomerados de mídia do estado – parece esquecer que seu próprio império depende de profissionais que enfrentam rotinas intensas, prazos rigorosos e pressões constantes. Ao atacar o direito ao descanso, ele atinge diretamente aqueles que fazem sua estrutura funcionar.
A tentativa de redefinir trabalho como mera exaustão – “sair de casa de manhã e voltar à noite” – não só é ultrapassada, como perigosa. Essa lógica romantiza jornadas abusivas e ignora avanços fundamentais nas discussões sobre saúde mental, produtividade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Em pleno século XXI, esse discurso soa não apenas antiquado, mas desconectado da realidade.
Ainda mais grave é tratar o impacto dos feriados como um entrave ao desenvolvimento, como se o problema econômico do país estivesse nos poucos dias de descanso garantidos por lei. A fala simplifica uma questão complexa e desvia o foco de problemas estruturais muito mais profundos, como desigualdade, baixa produtividade sistêmica e falta de investimento.
O Dia do Trabalhador não nasceu por acaso. Sua origem remonta às greves de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos, quando trabalhadores foram às ruas exigir condições mínimas de dignidade. Reduzir essa data a um “dia da vagabundagem” é ignorar uma história construída com luta, repressão e conquistas sociais fundamentais.
Mais do que uma opinião controversa, a declaração evidencia um abismo entre quem vive do trabalho e quem se beneficia dele. E quando esse tipo de pensamento parte de alguém com influência política, econômica e midiática, o problema deixa de ser apenas retórico – passa a ser simbólico.
Desmerecer o trabalhador é desmerecer a própria base da sociedade. E nenhuma narrativa empresarial, por mais poderosa que seja, muda esse fato.
E que depois ele não venha dizer que foi uma fala infeliz, porque disse exatamente o que queria dizer.
Do ManchetePB
Coluna Bastidores


