Pery Camilo é jornalista, graduanda em Comunicação Social e militante das causas do feminismo negro. O texto foi escrito em 2019, mas palavras são atemporais

O Dia Internacional da Mulher, acima de tudo, é uma data de protestos, para reivindicar, para se fazer ouvir. Porque se há algo para celebrarmos neste dia, é a nossa “VOZ“.

Não existe nada que se tema mais que uma mulher de personalidade forte, com opinião e criticidade. Incomoda, preocupa, enraivasse. Ter voz ainda é a arma que nos define como ser paradoxal.

Neste, como em todos outros dias, não queremos apenas flores, homenagens, ou agrados momentâneos estimulados por campanhas de publicidade machista. Queremos ter voz, queremos respeito, e garantia de direitos.

Por isso, antes de um dia de celebração, esse dia merece reflexões:

Qual o nosso verdadeiro papel na sociedade? Quais políticas públicas nossos municípios oferecem para nós?
Por que ainda em pleno século XXI, e depois de conquistarmos algum espaço, continuamos com nossos direitos vilipendiados e negligenciados? Por que ainda somos minimizadas, tendo às vezes nossos salários diminuídos, mesmo exercendo a mesma função que um homem, e muitas vezes com maior competência? Por que a violência contra mulher cresce a cada dia?

São tantas questões a serem debatidas, e é lamentável que a maioria das vezes apenas no 08 de março elEs atentem para isso.

A predominância feminina no mundo é confirmada em estatística, mas ainda assim somos a minoria em quase todos os cargos de chefia e em cargos eletivos, e assim sendo, alguma coisa de muito errada está acontecendo com a própria mulher. Então eu pergunto a VOCÊ MULHER: Onde está a SUA/MINHA consciência de representatividade?

Todos os nossos direitos foram duramente conquistados, muitos a preço de sangue, mas, ainda, as mulheres precisam se manter vigilantes e combativas para reivindicar a garantia que esses direitos não sejam usurpados.

A cada 04 minutos uma mulher morre vítima de violência doméstica no mundo, a cada 30 segundos uma mulher é desrespeitada, agredida ou violentada. Essa realidade nos cansa, nos adoece, nos machuca a alma, mas, também nos impulsionam a seguir resistindo.

Foram as mulheres que estiveram nas ruas dizendo NÃO à Reforma da Previdência, que hoje impacta de maneira negativa, principalmente a vida das mulheres do campo.

Foram as mulheres de todo Brasil que estiveram em manifestos em defesa, não apenas do direito delas, mas de todo povo brasileiro. E isso me faz entender o porquê que a maioria das grandes revoluções mundiais se iniciaram a partir de um incômodo, de uma ideia, uma luta de feminina.

Ah! que lamentável ainda termos que levantar bandeiras para defender o que deveria ser um direito universal.

Que bom seria poder caminhar pelas ruas, sem medo de ser estuprada, agredida, morta, apenas pelo simples fato de ser MULHER.

Que bom seria não ter que conviver com a ignorância em forma de piadas que teriam bem mais graça se não retratassem preconceitos contra todas nós.

São tantas questões a serem debatidas…

Mas, só por hoje, enalteço a luta e obstáculos já vencidos, as barreiras quebradas, os degraus galgados.

Mas isto é ser mulher, não é? Viver uma vida de renúncias, lutas e vitórias.

Mesmo assim hoje, de novo, quero parabenizar você MULHER:

Parabéns a você MULHER que se pinta, se arruma, se perfuma e passa horas no cabeleireiro, não porque a vaidade te define, mas porque te faz bem.

Parabéns a você MULHER que não se importa com estrias, gordura, celulite, pêlos pelo corpo… e nem quer se encaixar nos padrões impostos pela ditadura da beleza. Você se aceita e se acha linda do jeito que é.

Parabéns a você MULHER que tem domínio sobre sua sexualidade e transa com quem desejar, e quando desejar, pois sabe que liberdade sexual não tem gênero.

Parabéns a você MULHER que cria filhos, netos, sobrinhos… e consegue ser mãe até sem ter parido, porque o amor ao próximo é instinto feminino.

Parabéns a você MULHER que ama e tem desejo por outra mulher e causa confusão por não perder o jeito sensivelmente feminino.

Parabéns a você MULHER que ganha desconto nos seguros veiculares, porque dirige com mais sensibilidade, segurança e habilidade, mas ainda assim convive com máxima machista de que é “ruim ao volante”.

Parabéns a você MULHER que sabe que se sofreu violência, foi abusada, desrespeitada, agredida e insultada, a culpa não é sua ou da roupa que veste. Você é a vítima!

Parabéns a você MULHER que suporta mensalmente as dores incômodas e as alterações no humor, provocados pela natureza feminina.

Parabéns a você MULHER que se desdobra em mil e tem competência para ser profissional, esposa, do lar, da igreja, do bar, da rua… e de onde bem quiser.

Parabéns a você MULHER que foi chamada de fraquejada por um homem, mas que de Deus recebeu a missão, a força e o reconhecimento de ser o único ser capaz de suportar as dores que traz vida a todos os seres humanos do mundo.

Parabéns a você MULHER que resiste a demagogia das homenagens de um único dia, mas que em todos os outros dias do ano, resiste a relativização da tua luta por promoção de políticas públicas que te apoie/proteja/acolha.

Parabéns a você MULHER que educa, motiva e inspira os homens de suas vidas com a sensibilidade e a beleza que também a define.

Parabéns a você MULHER PRETA, para quem a sobrevivência consegue ser ainda mais dura, na luta exaustiva contra o sexismo e o racismo estrutural, que dilaceram a nossa existência com violências diárias, que machucam a nossa carne, mas que não conseguem aprisionar o nosso espírito.

Parabéns a você MULHER que tem voz e que se faz ouvir, mesmo quando o resto do mundo tenta te calar.

De salto alto e com sorriso no rosto RESISTIMOS e EXISTIMOS. Por isso, para as mulheres de hoje e a todas que vieram antes mim, não apenas neste Dia 08, desejo a todas nós mais coragem para seguir. E como disse a filósofa feminista Rosa Luxemburgo, continuemos na luta “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humamente diferentes e totalmente livres”.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Jornalista Pery Camilo