
Imagine o motorista que sai de casa de manhã. Ele engata a segunda marcha, acelera para sair da garagem, acelera mais pela rua principal, quando de repente aparece uma lombada: frear, trocar marcha, pisar na embreagem, segurar o freio. Quase recuperado, ele tira o pé da embreagem, engata marcha de novo, acelera… e pronto: outra lombada. Não há tempo para respirar, nem para adaptar o ritmo. O carro sobe os batentes, sacode os passageiros, pula, rangendo a suspensão. O consumo dispara, fumaça leve sai pelo escapamento, motor exige mais esforço. Esse vai e vem de acelerar/frear, marcha/embreagem se repete, cansando motorista, danificando o carro, poluindo o ar — e ainda assim, em muitos casos, a velocidade nunca foi ajustada adequadamente.
Guarabira vive um dilema crescente nas suas ruas e avenidas: com o aumento acelerado da frota de carros e motos, somado à expansão do comércio na região metropolitana, há um número cada vez maior de acidentes e reclamações de moradores. A solução de instalar lombadas físicas — ou “quebra-molas” — tem sido adotada com frequência, mas com diversas falhas de planejamento, irregularidades técnicas e efeitos colaterais que demandam uma revisão urgente.
Velocidade, acidente e um município sem infraestrutura para tanto tráfego
Moradores da PB-073 protestaram exigindo quebra-molas imediatos após uma sequência de atropelamentos e acidentes em trecho urbano bastante movimentado. Já em uma das saídas da cidade, próximo ao Conjunto Rota do Alto, há registros frequentes de colisões. Também há demandas reiteradas na Câmara Municipal para instalação de novas lombadas em várias ruas, o que indica que boa parte da população percebe risco por excesso de velocidade ou tráfego intenso de veículos leves e pesados.
Paralelamente, Guarabira não foi projetada originalmente para suportar o volume de automóveis, motos e empresas de comércio que atualmente atravessa suas vias urbanas. A pavimentação de ruas e recuperação asfáltica têm sido prioridades, mas sem um plano estrutural de mobilidade, muitas vias viram-se forçadas a “remediar” problemas com lombadas em vez de prevenir com mudanças mais amplas.
O que diz o CTB (Código de Trânsito Brasileiro)
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu artigo 94, define que obstáculos à livre circulação só podem ser usados em casos especiais, com autorização e estudo técnico prévio. A Resolução nº 39/1998 do CONTRAN determina dimensões, sinalização e locais adequados para as ondulações transversais — que só devem ser aplicadas em vias com necessidade comprovada de redução de velocidade. Já a Resolução nº 600/2016, mais recente, reforça que as lombadas são recurso excepcional, e que outros meios de controle eletrônico e engenharia de tráfego devem ser priorizados.
Na prática, contudo, as regras muitas vezes ficam no papel — e o excesso de quebra-molas se tornou comum nas cidades brasileiras, inclusive em Guarabira.
O que está sendo feito — o caso de Guarabira
A SEMOB Guarabira informou ao ManchetePB que a SEINFRA é o setor responsável pela instalação e sinalização das lombadas. Nos últimos meses, foram instaladas 12 novas ondulações nas seguintes vias:
| Local | Número |
|---|---|
| Rua São Manoel | 1 |
| Rua José da Cunha Rêgo | 1 |
| Avenida Calcides Toscano | 3 |
| Rua Napoleão Laureano | 1 |
| Rua Joca Ataíde | 3 |
| Rua José de Olivera | 1 |
| Rua Pedro Clemetino | 2 |
Além disso, há diversos requerimentos na Câmara Municipal solicitando a instalação de novas lombadas, o que pode aumentar ainda mais esse número.
Problemas e impactos das lombadas mal planeadas
Apesar da boa intenção, há contrastes entre a prática em Guarabira e o que determina a lei. A SEMOB tem se esforçado para manter a sinalização, mas em algumas ruas não é dificil encontrar “quebra-molas” fora da padronização adequada e muitas estruturas feitas fora das medidas regulamentares. O resultado é um conjunto de impactos negativos: danos mecânicos aos veículos, aumento do consumo de combustível e emissão de poluentes, desgaste de componentes e interferência direta no tráfego de ambulâncias e viaturas.
A cada parada e arranque forçado, o trânsito urbano se torna mais lento e poluído, o motorista mais estressado e o custo de manutenção mais alto. A sensação é de estar preso num ciclo de frear, engatar, acelerar e frear novamente — sem tempo nem de tirar o pé da embreagem antes de encontrar outra lombada.

Propostas de soluções
Em vez de multiplicar as lombadas físicas pela cidade, Guarabira precisa investir em alternativas mais modernas e eficientes. A instalação de lombadas eletrônicas e radares fixos pode controlar a velocidade sem danificar veículos nem comprometer o tráfego de emergência. É essencial também apostar em redutores de velocidade com sinalização adequada e visível à distância, evitando as frenagens bruscas e inesperadas que hoje fazem parte da rotina de quem dirige no município.
Essas ações devem vir acompanhadas de planejamento urbano, com revisão do fluxo viário e redistribuição do trânsito para vias apropriadas, reduzindo o improviso nas áreas residenciais. Além disso, campanhas permanentes de educação no trânsito são fundamentais para mudar comportamentos e reforçar a responsabilidade de motoristas e pedestres.
Lombadas podem salvar vidas
Mas só se usadas corretamente, de forma excepcional, e como parte de uma política de mobilidade mais abrangente. Em Guarabira, há sinais de que o volume de intervenções físicas cresceu sem que os critérios técnicos, legais e de planejamento urbano acompanhassem na mesma intensidade.
Se cada novo requerimento de lombada for atendido sem olhar para o conjunto da infraestrutura, carros, motos, pedestres e o meio ambiente acabarão pagando o preço — em forma de acidentes contínuos, desgaste crescente, custos extras, poluição e deslocamentos ineficientes. O ideal seria que lombadas fossem o recurso de último caso, não o primeiro instinto municipal, e que se invista em alternativas mais sustentáveis e eficazes.
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