
O ano era 2013. Nos corredores do Colégio da Luz, encontramos Josefa Diogo de Lima (Detinha) e, entre outros assuntos, conversamos sobre a nomeação de seu filho Marcus para a função de Secretário de Infraestrutura do Governo Zenóbio Toscano – naquela eleição, ele havia sido eleito o vereador mais votado de Guarabira. “Orientei Marcus a seguir os caminhos que sempre ensinei e, se ele perceber algo estranho aos valores que transmiti, prefiro que saia e não se envolva. E te peço uma coisa, Rafael: como radialista, se souber de algo errado sobre Marcus, venha me dizer, por favor”, confidenciou-me dona Detinha.
O tempo passou, e nada de estranho soube que pudesse compartilhar com ela. Nos corredores do Colégio da Luz, passei a dialogar um pouco mais com Marcus. Foi ali que o ouvi repetir o que havia sugerido nas entrelinhas de seu discurso de posse na Câmara Municipal: “Não farei carreira como vereador; pretendo servir melhor a Guarabira em outras funções, inclusive como prefeito.” Mal sabia eu que o caminho entre aquele diálogo e o dia de hoje seria tão curto e marcado por perdas tão significativas. De lá para cá, Detinha e Zenóbio faleceram, e Marcus Diogo foi eleito prefeito. Um turbilhão de acontecimentos que marcaria para sempre a história da cidade.
Um silêncio barulhento tomou conta dos corredores do Colégio da Luz. Tudo seguiu iluminado, mas sem Detinha – que partiu para outra dimensão – e sem Marcus – que se tornou prefeito. Sem os dois para conversar, passei a dialogar comigo mesmo, com as frases e as fotos que me acompanhavam nas visitas ao Colégio. Optei por reduzir a frequência dessas visitas e caprichar na qualidade da experiência: viver intensamente os momentos importantes dos meus filhos que ali estudavam e dos colaboradores que ali trabalhavam. Era a minha versão “transcendente” entrando em cena, emprestando-me uma nova lente para enxergar tudo por outra ótica.
Sob outra ótica, foi possível entender que muita gente “tinha”, mas não “detinha” ou que “Detinha tinha”. O verbo “deter” permite a conjugação “eu detinha” no pretérito imperfeito do indicativo, que indica uma ação ocorrida no passado, mas não finalizada. Trata-se de uma fotografia do passado que captura um momento em andamento, sem apresentar seu início ou fim.
Em suma, uma educadora que “detinha” o que “Detinha tinha” é, por si só, uma intervenção atemporal, simbolizando valores de uma vida que, embora pareça ter passado, permanece presente e sem necessidade de prazo de validade. “Eu detinha”, do verbo “deter”, permite diversas formas de conjugação. A professora Josefa Diogo de Lima, certamente, não vivia uma vida de conjunção única. Ela era plural, grandiosa e inquieta. “Eu detinha”, do verbo “deter”, também significa fazer cessar e prender atenções para investigar e compreender melhor — atitude em desuso.
Essas linhas nostálgicas me encorajaram hoje. Marcus e eu seguimos cumprindo nossos papéis sociais, cada um em sua missão. Então, um fato muda tudo novamente: a morte do inesquecível Cid Cordeiro. Estava apresentando meu programa de rádio, como de costume, quando recebi a notícia de seu falecimento. A partir daí, passamos a informar sobre os atos fúnebres do colega de profissão. Luto na mídia local. Com um detalhe: Cid era o coordenador de comunicação da Prefeitura de Guarabira, e logo surgiram especulações inevitáveis sobre quem o substituiria. Nunca me passou pela cabeça ocupar essa função. Eu estava focado em meus projetos profissionais e pessoais, até que um contato de Robério Arnauld, Chefe de Gabinete da Prefeitura de Guarabira, muda tudo.
O convite foi feito e, após muita resistência da minha parte, fui finalmente convenciado a aceitar o desafio. Por fim, compreendi que minha passagem seria breve, mas suficiente para avançar na estruturação da pasta e entregá-la em melhores condições. E assim foi: aprimoramos a estrutura física, ajustamos funções e salários, elevamos a então coordenadoria ao status de secretaria, de fato e de direito, garantimos um veículo para coberturas, ampliamos as parcerias com a mídia local e conectamos as 20 secretarias para melhor informar a população. Tudo foi encaminhado com discrição, priorizando o que realmente deveria ser divulgado.
Mas não é sobre as conquistas da antiga CODECOM, atualmente SECOM, que quero falar. Estas linhas de hoje, que faço questão de publicar, são de gratidão e respeito ao homem Marcus Diogo. E isso só é possível porque minha vida profissional foi historicamente baseada no respeito a todos, indistintamente. Sei considerar e valorizar. Foi assim com Zenóbio e Lea Toscano, com Roberto e Raniery Paulino, e com tantos outros. É um traço da minha personalidade.
Quando Marcus me chamou para colaborar com a gestão municipal, eu estava no ano jubilar dos meus 25 anos de rádio, dos quais praticamente todos foram vividos em Guarabira. Para mim, esse convite soou como um reconhecimento institucional à minha trajetória na cidade. Mesmo não residindo ou votando em Guarabira, entendi que o olhar técnico de Marcus não apenas quebrou paradigmas, mas também honrou minha história, oferecendo-me a oportunidade de melhor servir à cidade que me acolheu e me abraçou como seu cidadão e filho.
Cheguei num instante delicado por ser a fase conclusiva da gestão (o bonde estava andando) e tinha consciência que poucas mudanças aconteceriam. Me resignei as limitações que a gestão pública impõe e procurei me apoiar no ombro de gigantes para fazer o possível naquele cenário. Dentro da gestão, uma gigante que me apoiou desde o primeiro momento foi Verônica Diogo, sem ela muitas conquistas não aconteceriam. Verônica foi necessária e diligente quando minhas pernas faltavam. Além da felicidade de ter contado com uma equipe de trabalho genuína e profissional que me acolheu e fez a diferença.
Todavia, este último parágrafo, dedico ao ser humano Marcus Diogo. E o faço justamente quando muitos não tem mais coragem. Quando é mais fácil obscurecer valores humanos a fim de aguardar um afago institucional. Não sou assim. Antes que alguém venha me questionar, invoco meu direito de fala respeitando sua discordância. Democracia é um campo que permite essa sentença: “se você não gosta dele, eu respeito, mas não me peça para não gostar”.
Marcus tem muitas qualidades pessoais que infelizmente foram sucumbidas pelo universo do poder que ao empurrá-lo para “areia movediça” da popularidade figurativa do “político ideal” tradicionalmente construída, desfocou os resultados da gestão. Sou do time que defende a tese que de longe, Marcus nunca foi e nunca será, o pior gestor da história. Isso não se sustenta pelos números e ações que haveremos de analisar melhor no transcurso da história. O tempo nos ajudará melhor nessa tarefa.
E no campo pessoal, além de excelente filho, irmão, esposo, pai e avô, é um empresário vitorioso que teve a oportunidade de ser prefeito e fez muito bem a muita gente. Vi de perto o quanto Marcus foi bom para várias pessoas que certamente sentirão muita sua falta. Vi de perto seus defeitos, os mesmos que são inerentes a todos nós, inclusive falhas que lotam o cotidiano de muitos dos seus críticos que não resistem um minuto sem suas máscaras. Todos somos humanos, falhamos e acertamos!
Enfim, sou grato a Marcus Diogo pela oportunidade de aprendizado e crescimento. Desejo a Lea Toscano e equipe muito sucesso para que Guarabira continue avançando e abençoado ano novo para todos nós!
Rafael San



